terça-feira, 14 de junho de 2011

Candomblé: Onilé


Onilé é uma divindade feminina relacionada aos aspectos essenciais da natureza, e originalmente exercia seu patronato sobre tudo o que se relaciona à apropriação da natureza pelo homem, o que inclui a agricultura, a caça, a pesca e a própria fertilidade. Com as transformações da sociedade Yorubá numa sociedade patriarcal ou patrilinear, que implicou a constituição de linhagens e clãs familiares fundados e chefiados por antepassados masculinos, as mulheres perderam o antigo poder que tiveram numa primeira etapa (um mito relata que, numa disputa entre Oyá e Ogum, os homens teriam arrebatado o poder que era antes de domínio das mulheres). Os antepassados divinizados tomaram o lugar das divindades primordiais e houve uma nova divisão de trabalho entre os Orixás. As divindades femininas antigas tiveram então seu culto reorganizado em torno de entidades femininas genéricas, as Iyami Oxorongás, consideradas bruxas maléficas pelo fato de representarem sempre um perigo para o poder masculino. Vários Orixás tiveram divididas entre si as atribuições de zelar pela Terra: o subsolo ficou para Olwuaye e para Ogum, o solo para Orixá Oko e Ogum, a vegetação e a caça para os Odés e Ossanha e assim por diante. A fertilidade das mulheres foi o atributo que restou às divindades femininas, já que é a mulher quem dá a luz, que reproduz e dá continuidade à vida. Constituiriam-se elas então em Orixás dos rios, representando a própria água, que fertiliza a terra e permite a vida: são as Yabás Oxum, Yemanjá, Obá, Oyá, Ewá e também Nanã, que como antiga divindade da terra, representa a lama do fundo do rio, simbolizando a fertilização da terra pela água.
Onilé teve seu culto preservado na África, mas perdendo muitas das antigas atribuições. Hoje ela representa nossa ligação elemental com o planeta em que vivemos, nossa origem primitiva. É a base de sustenção da vida, é o nosso mundo material. Embora sua importância seja crucial do ponto de vista da concepção religiosa de universo, os devotos a ela pouco recorrem, pois seu culto não trata de aspectos particulares do mundo e da vida cotidiana, preferindo cada um dirigir-se aos Orixás que cuidam desses aspectos específicos. Na Nigéria mantém-se viva a ideia de que Onilé é a base de toda a vida, tanto que, quando se faz um juramento, jura-se por Onilé. Nessas ocasiões, é ainda costume pôr na boca alguns grãos de terra, às vezes dissolvida na água que se bebe para selar o juramento, para lembrar que tudo começa com Onilé, a Terra Mãe, tanto na vida como na morte.
Um mito ensina qual é a atribuição principal de Onilé, como ela está associada ao chão que pisamos e sobre o qual vivemos, nosso mundo material. Assim conta o mito:

Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodumaré. Vivia trancada na casa do pai e quase ninguém a via. Quase nem se sabia de sua existência. Quando os Orixás, seus irmãos se reuniam no palácio do grande Pai para as grandes audiências, em que Olodumaré comunicava suas decisões, Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos atabaques. Onilé não se sentia bem no meio dos outros. Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem: haveria uma grande reunião no palácio e os Orixás deviam comparecer ricamente vestidos, pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo e depois haveria muita comida, música e dança. Por todos os lugares os mensageiros gritaram esta ordem e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento. Quando chegou por fim o grande dia, cada Orixá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação, cada um mais belamente vestido do que o outro, pois este era o desejo de Olodumaré. Yemanjá chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas e o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérolas. Oxóssi escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais. Ossanha vestiu-se com um manto de folhas perfumadas. Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira. Oxum escolheu cobrir-se de ouro, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios. As roupas de Oxumaré mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva. Iansã escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade. Xangô não deixou por menos e cobriu-se com o trovão. Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio. E assim por diante.
Não houve quem não usasse toda a criatividade para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita. Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo. Cada Orixá que chegava ao palácio de Olodumaré provocava um clamor de admiração, que se ouvia por todas as terras existentes. Os Orixás encantaram o mundo com suas vestes. Menos Onilé.
Onilé não se preocupou em vestir-se bem, não se interessou por nada, não se mostrou para ninguém e recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão. Quando todos os Orixás haviam chegado, Olodumaré mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono. Ele disse então à assembléia que todos eram bem vindos. Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo e que estavam tão bonitos que ele não saberia escolher entre eles qual seria o mais vistoso e belo. Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição. Então Olodumaré disse que os próprios filhos, ao escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela riqueza se apresentar perante o pai, eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo. Então Yemanjá ficava com o mar, Oxum com o ouro e os rios. A Oxóssi deu as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Ossanha. Deu à Iansã os raios e a Xangô o trovão. Fez Oxalá dono de tudo que é branco e puro, de tudo que é o princípio, deu-lhe a criação. Destinou a Oxumaré o arco íris e a chuva. A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele, inclusive a guerra. E assim por diante. Deu a cada Orixá um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular. Dividiu de acordo com o gosto de cada um. E disse que a partir de então, cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza. Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria dar uma oferenda ao Orixá que a possuísse. Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção do Orixá. Os Orixás, que tudo ouviram em silêncio, começaram a gritar e a dançar de alegria, fazendo um grande alarido na corte. Olodumaré pediu silêncio, ainda não havia terminado. Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições. Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra, o mundo no qual os humanos viviam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos Orixás. Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra. Quem seria? perguntavam-se todos? "Onilé", respondeu Olodumaré. "Onilé?", todos se espantaram. Como, se ela nem sequer viera à grande reunião? Nenhum dos presentes a vira até então. Nenhum sequer notara sua ausência. "Pois Onilé está entre nós", disse Olodumaré e mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde se abrigava, vestida de terra, a discreta e recatada filha. Ali estava Onilé, em sua roupa de terra. Onilé, a que também foi chamada de Ilê, a casa, o planeta. Olodumaré disse que cada um que habitava a Terra pagasse tributo a Onilé, pois ela era a Mãe de todos, o abrigo, a casa. A humanidade não sobreviveria sem Onilé. Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Olodumaré partilhara entre seus filhos Orixás? "Tudo está na Terra", disse Olodumaré. "O mar e os rios, o ferro e o ouro, os animais e as plantas, tudo", continuou. "Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco íris, tudo existe porque a Terra existe, assim como as coisas criadas para controlar os homens e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte".Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé, foi a sentença final de Olodumaré. Onilé, Orixá da Terra, receberia mais presentes que os outros, pois deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem. Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre, para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído. Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumaré. Todos os Orixás aclamaram Onilé. Todos os humanos propiciaram a mãe Terra. E então Olodumaré retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos. Assim, este mito de modo didático e com muita beleza, situa o papel de Onilé no panteão dos deuses Yorubás. Como é estrutural nos mitos, o tempo da narrativa não é histórico, dando a impressão de que os cultos dos diferentes Orixás foram instituídos a um só tempo, num só ato do supremo Deus. A narrativa enfatiza, contudo, a concepção básica da religião dos Orixás, isto é, que cada Orixá é um aspecto da natureza, uma dimensão particular do mundo em que vivemos. Eles são o próprio mundo, com suas forças, elementos, energias e propriedades. Mundo este que tem por base Onilé, a Terra, o planeta que habitamos, o nosso lar no universo. Na África Yorubá, Onilé ocupa lugar central no culto da sociedade masculina secreta Ogboni. Louvar Onilé é celebrar as origens. Por isso, quando aparecem junto aos humanos, os antepassados egunguns saúdam Onilé, lembrando-nos que ela é anterior a tudo, mesmo às linhagens mais antigas da humanidade. Onilé é assentada num montículo de terra vermelha, que representa o coração da Terra, que é trazida de dentro do solo pelas formigas. Há uma quartinha com água, pois não há vida na Terra desprovida de água. A quartinha dentro da terra simboliza que a água vem de dentro da Terra e que é assim a primeira dádiva de Onilé.
A água que jorra do solo, forma os regatos, rios, lagos e o próprio mar, de onde sobe para as nuvens e se precipita em chuva, voltando ao solo e subsolo, num ciclo permanente de propiciação da vida. O assentamento é coberto com moedas e búzios, que entre os antigos iorubanos era dinheiro, representando toda a riqueza e prosperidade que está na Terra, que dela extraímos e na qual vivemos. Vermelho e marrom, cores da terra, são as contas apropriadas para colares que homenageiam Onilé. Na África, os sacrifícios feitos a Onilé incluem caracóis, aves fêmeas e tartarugas (Abimbola, 1977: 111). No Brasil, a legislação pune como crime inafiançável o sacrifício de animais ameaçados de extinção e, por isso, a tartaruga é substituída pela cabra. Aliás, matar um animal em extinção seria uma ofensa imperdoável à Onilé, que é a própria natureza, a grande Mãe da ecologia. Além desses animais, dá-se para Onilé tudo o que a terra produz e que o homem transforma: obis, orobôs e todas as demais frutas, inhame e outros tubérculos, feijões, milho, favas, mel, dendê, sal, vinho e tudo mais que vem da terra pela mão do homem. Onilé, isto é, a Terra. Tem muitos inimigos que a exploram e podem destruí-la. Para muitos seguidores da religião dos Orixás, interessados em recuperar a relação Orixá-natureza, o culto de Onilé representaria a preocupação com a preservação da própria humanidade e de tudo que há em seu mundo. Pois é Onilé quem guarda o planeta e tudo que há sobre ele, protegendo o mundo em que vivemos e possibilitando a própria vida de tudo o que vive: as plantas, os bichos e a humanidade.
 Autor: Mogba Klaudio -  Gazeta Mogba News (com adaptações).

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